A reabilitação do quadril

Escrito por: Drª. ADRIANA DE BORTOLI, FISIOTERAPEUTA

Segundo o Guide to Physical Therapist Pratice, o termo fisioterapia compreende o “diagnóstico e o tratamento da disfunção do movimento e o aprimoramento das capacidades físicas e funcionais; restauração, manutenção e promoção da ótima função física, de aptidão e bem-estar ótimos e qualidade de vida ótima no que se relaciona o movimento e à saúde; além de prevenção do início, dos sintomas e da progressão das deficiências, das limitações funcionais e das incapacidades que podem resultar de doenças, distúrbios, afecções ou lesões (traumatismos).” A origem da fisioterapia é antiga e relatos de medidas fisioterapêuticas são encontradas na história do mundo. Na Antiguidade, algumas doenças eram tratadas com agentes físicos (sol, luz, calor, água e eletricidade), hidroterapia (nas famosas termas) e as massagens citadas por Hipócrates em 460 a.C. a eletroterapia com o peixe elétrico citada por Aristóteles em 381 a.C. e a cinesioterapia com os exercícios físicos citados por Galeno em 199 a.C.

Aristóteles (384-322ac) é considerado o pai da biomecânica. Os seus tratados intitulados: a progressão animal e o movimento animal descrevem as ações musculares e as analisaram pelo ponto de vista geométrico. Foi o primeiro a descrever a marcha, demonstrando a transferência de força do membro para o solo, gerando movimento. Este fenômeno posteriormente culminaria nas leis de Newton.

O Romano Galeno (131-201 AC.), era responsável pela saúde dos gladiadores de Pergamum e em seu ensaio de motu musculorum descreveu os diversos músculos do corpo, dividiu os neurônios em motor e sensorial, dividiu os músculos em agonistas e antagonistas, descreveu o significado de tônus muscular e classificou as articulações de acordo com a sua capacidade de movimento (diartroses, sinartroses e anfiartroses). Nesta obra, Galeno referia-se ao controle do movimento com resultado da passagem do “espírito animal” do cérebro através dos nervos até os músculos. Foi considerado o pai da medicina esportiva.

Com o Renascimento (período aproximadamente entre o final do século XIII e meados do século XVII) , os estudos biomecânicos foram retomados com Leonardo Da Vinci (1452-1519), que descreveu em detalhes o corpo humano e realizou estudos sobre o centro de gravidade, equilíbrio descrevendo mecanismo da marcha e da corrida no plano e em planos inclinados, além de mecanismos de equilíbrio durante o sentar, levantar e saltar. No seu tratado de mecânica do movimento demonstrou o conhecimento dos vetores de força e descreveu a biomecânica muscular utilizando diversas pinturas. Em 1543, Andreas Vesalius publicou o Livro De Humani corporis fabrica texto amplamente ilustrado sobre a estrutura do corpo humano. Nesta obra Vesalius corrige alguns equívocos anatômicos cometidos por Galeno e é considerado o Pai da Anatomia moderna.

Isaac Newton (1642-1727) é o fundador da dinâmica moderna e formulou teorias que são fundamentais para a avaliação da cinesiologia. São elas: primeira Lei de Newton- a lei da inércia, segunda Lei de Newton- quantidade de movimento ou princípio fundamental e Terceira Lei e Newton- lei da ação e reação.
Giovanni Alfonso Borelli, aos 16 anos, foi para Roma onde se tornou um estudante de um ex-aluno de Galileu, chamado Benedetto Castelli, fundador da ciência da hidráulica. O grande tratado de Borelli, o segundo livro chamado De motu animalium, foi publicado pouco depois de sua morte. Borelli foi o primeiro a compreender que as alavancas do sistema osteomuscular ampliam a força, possibilitando que os músculos devem produzir forças muito maiores. Com base no trabalho de Galileu e o entendimento intuitivo de equilíbrio estático, Borelli descobriu as forças necessárias para o equilíbrio em várias articulações do corpo humano, bem antes que Newton publicasse as leis do movimento. Ele também determinou a posição do centro de gravidade humana, em diferentes situações de equilíbrio, como por exemplo, com o indivíduo deitado, sentado, em pé ou sob a infuência dos movimentos respiratórios.

Entre os séculos XVIII e XIX, com a industrialização, houve o desenvolvimento das cidades e, com as condições sanitárias precárias, jornadas de trabalho estafantes e condições alimentares insatisfatórias, ocorreu a proliferação de novas doenças e epidemias que exigiram da medicina um desenvolvimento compatível.
Samuel Haughton (1821-1897) em inúmeros artigos, descreveu o movimento humano e dos animais. Entretanto, o avanço do conhecimento a respeito da mecânica do corpo foi muito dificultado pela falta de um método satisfatório de reprodução cronológica do movimento. Este avanço foi feito em 1878, quando Janssen, um astrônomo que havia usado imagens em série para estudar o movimento de Vênus, sugeriu a utilização de fotos cinematografadas ao estudo do movimento humano. Eadweard Muybridge (1831-1904) publicou seu livro The Horse in Motion em 1882, e em 1887 escreveu a sua principal obra, Animal Locomotion em onze volumes. Estas técnicas fotográficas abriram caminho para os estudos experimentais de Christian Wilhelm Braune (1831-1892) e Otto Fischer (1861 – 1917), que ainda são considerados de grande importância no estudo da marcha humana.
O final do século XIX e início do século XX foram mais produtivos de estudos fisiológicos intimamente relacionados à cinesiologia (estudo do movimento). Adolf Eugen Fick (1829 – 1901) fez importantes contribuições para nosso conhecimento da mecânica do movimento muscular e introduziu os termos “isométrico” e ”isotônico”.

O estudo da mecânica do desenvolvimento foi introduzido por Wilhelm Roux (1850-1924), que afirmou que a hipertrofia muscular se desenvolve apenas quando um músculo é forçado a trabalhar intensamente, o que mais tarde foi demonstrado experimentalmente por Werner W. Siebert (1960).

B. Morpurgo mostrou que a maior resistência e hipertrofia é o resultado do aumento no diâmetro das fibras individuais de um músculo e não resultado do aumento no número de fibras. A teoria do exercício de resistência progressiva baseia-se principalmente nos estudos de Morpurgo.

O primeiro compêndio extenso sobre a mecânica do corpo, The Human Motor, foi publicado em 1914 por Jules Amar, que procurou reunir em um volume todos os elementos físicos e fisiológicos do movimento aplicados aos trabalhadores nas indústrias. Desde a sua publicação, inúmeros estudos industriais baseados nos princípios de Amar foram publicados, talvez dos quais os mais conhecidos sejam: The British Industrial Fatigue Research Board, de Frank B. (1868-1924) e Lillian M. (1878-1972). Os estudos nesta área foram bastante estimulados como resultado dos rápidos avanços na engenharia e desenvolvimento de máquinas. Os cientistas produziram diversos trabalhos relativos à aplicação dos princípios mecânicos científicos do corpo humano para a indústria, hoje conhecidos como engenharia humana ou a ciência da ergonomia. As tentativas de resolver os problemas relacionados à falta de gravidade dos vôos espaciais também deram novo impulso. Modermamente aparecem laboratórios de análise de movimento, que realizam avaliação tridimencional da marcha ou até de um gesto esportivo pelos seus aspectos cinemáticos e dinâmicos

A fisioterapia parece ter seguido a mesma direção no decorrer da história, passando pela atuação curativa na antiguidade, pela estagnação na Idade Média, pela atenção preventiva concomitante a curativa durante o Renascimento e novamente pelo direcionamento puramente curativo durante a industrialização. Contudo, foi com o acontecimento das grandes guerras que sentiu-se a necessidade da formação de profissionais específicos para a área de reabilitação e assim surgiram os primeiros cursos de fisioterapia.

No Brasil a história da Fisioterapia inicia em 1879, com a criação do primeiro setor de eletroterapia na Santa Casa do Rio de Janeiro e, em 1929, instala-se o serviço de Fisioterapia no Hospital das Clínicas em São Paulo. Em 1954, funda-se a Sociedade Brasileira de Fisioterapia. As primeiras instituições de ensino a formar fisioterapeutas foram a Escola de Reabilitação do Rio de Janeiro, em 1956, o Instituto de Reabilitação de São Paulo, em 1958, e a Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais (Fundação Arapiara), em 1962. A antiga Escola Nacional de Educação Física e Desportos da Universidade do Brasil – ENEFD (atualmente Escola de Educação Física e Desportos da UFRJ) e a Escola de Educação Física do Exército (ambas no Rio de Janeiro), ofereciam disciplinas de fisioterapia na formação de educadores físicos e de médicos especializados em medicina desportiva.

O professor Camilo Abud, catedrático em fisioterapia da ENEFD, ministrou também cursos de “instrução de recuperadores”, “treinamento e massagem” e formação em massagem desde a criação da Escola em 1939. Em São Paulo, existia a formação em serviço de técnicos para trabalharem em hospitais. Um exemplo deste tipo de formação foi o curso “Raphael de Barros”, oferecido no início dos anos 1950. O objetivo da formação era capacitar profissionais auxiliares médicos chamados de “técnicos operadores em fisioterapia”, em um curso com um ano de duração. A formação era uma exigência para todos que trabalhavam no serviço de fisioterapia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – USP. Este curso teve início em 1951 e encerrou suas atividades em 1956. O curso regular do Instituto de Reabilitação em São Paulo (ligado à USP) iniciou sua primeira turma em 1958. De acordo com Robin F. Hindley–Smith, médico consultor da Organização Mundial de Saúde (OMS), e um dos responsáveis pelo curso do instituto nacional de reabilitação (INAR), a primeira turma de técnicos em fisioterapia graduou–se no final de 1959, após a conclusão de um curso regular de dois anos de duração.

A profissão de fisioterapeuta foi regulamentada no Brasil no dia 13 de outubro de 1969. O Decreto–lei nº 938 a definiu como profissão de nível superior, cabendo ao fisioterapeuta, de forma privativa, a realização de “métodos e técnicas fisioterápicos com a finalidade de restaurar, desenvolver e conservar a capacidade física do cliente” e em 1975 foi criado o conselho federal de fisioterapia e terapia ocupacional (CREFITO). Atualmente um curso de fisioterapia deve ter mínimo de 4 mil horas segundo o parecer homologado pelo Ministro da Educação Fernando Haddad (Parecer CNE / CES nº 213/2008), que estabelece a carga horária mínima de cursos de graduação na área da saúde. O Parecer fixa em quatro mil horas a carga horária mínima dos cursos de graduação em e também determina que o curso de Fisioterapia terá duração mínima de cinco anos. A carga horária dos cursos deve ser mensurada em 60 minutos de aula. Os cursos também devem ter o mínimo de 200 dias letivos.

Com o objetivo de intensificar o desenvolvimento da fisioterapia a nível mundial, cria-se em 1948 a World Confederation for Physical Therapy (WCPT) com sede em Londres. Na América do Norte houve contribuição importante principalmente no emprego de testes musculares e da mecanoterapia (uso de vários tipos de aparelhos mecânicos para realização de movimentos passivos e para exercitar diversas partes do corpo). Na América do Sul, a Argentina foi o país pioneiro em cursos de Fisioterapia. Não há dúvidas de que a fisioterapia cresceu muito na última década e atualmente exerce funções importantes na prevenção, tratamento e reintegração do indivíduo à sociedade, reestabelecendo suas atividades diárias, laborativas e desportivas. No âmbito acadêmico, a fisioterapia também tem obtido significativo destaque com o surgimento crescente de publicações científicas. Muitas são as áreas de atuação do fisioterapeuta, como por exemplo: Ortopedia; Pediatria; Neuropediatria; Traumatologia; Reumatologia; Fisioterapia Desportiva; Ginecologia e Obstetrícia; Angiologia; Saúde coletiva; Pneumologia; Cardiologia; Geriatria; Gerontologia; Terapia Manual; Oncologia; Urologia; Neurologia; Neonatologia; Hidroterapia; Dermatologia; Saúde do Trabalhador; Administração; Acupuntura e Oncologia. Para que o fisioterapeuta possa atuar em abrangentes áreas, deve conhecer e dominar diversos recursos e técnicas, de abordagens específicas.

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